Apesar dos dias solitários
apesar da tristeza crônica
miúda, insistente
apesar da fragilidade das horas
que somem na lembrança
apesar da mediocridade da vida
que hoje se resume nos atos automáticos
regrados
cheia de compromissos toscos
que você acha que tem que cumprir
só por ser impensável não cumpri-los
ou por que não vale a pena assumir os riscos de abandonar as responsabilidades que nos impõem
apesar da garganta fechada
frente ao mundo que ofende a nossa opinião
apesar da deglutição dos gritos guardados
da falta de coragem para assumir meus pecados
apesar de querer voar e não sair do chão nunca
apesar de olhar sempre pra frente
e nunca sair do lugar
apesar de querer sair desse lugar
me jogar num vão
num buraco escuro
e chorar
até que o sal se cristalize em meu rosto
e eu me transforme numa linda estátua branca de gesso
apesar de não deixar a água cair
apesar de querer e não ter
apesar de não ter
apesar de nunca ter
sempre querer
apesar de não conseguir
apesar de não dizer
apesar de absorver passiva o que vem de fora
apesar de estar cansada
tão cansada a ponto de deixar o vento me levar...
apesar da mesmice
do ridículo, da vergonha
apesar de querer dormir pra sempre
apesar de ser e não parecer
apesar do medo
apesar de meus olhos sempre tristes
apesar de não caber neste lugar
apesar da dor
apesar da mandíbula e todas as articulações cansadas de articular
apesar do resto
apesar do essencial que não consigo achar
apesar de querer tanto desistir
apesar de pensar que as coisas acontecem por acaso e não por inércia
apesar da noite lá fora
e eu aqui presa num dia sem sol
apesar dos 360° do relógio incessante e teimoso
apesar de penar por nada...
apesar de não ligar...
apesar de não querer mais ouvir
não querer mais enxergar...
apesar de só querer imaginar as histórias do mundo.
*título: autoria de Rodrigo Severiano
sexta-feira, novembro 03, 2006
cuidado! poema triste *
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Sabedoria Popular...
"Quem não pode com a mandinga, não arrasta o patuá."
Um comentário:
apesar dos pesares, dos pêsames represados, dos pesadelos em plena vigília, das punhaladas intrépidas que nos pegam de assalto, da penumbra mórbida dos escritórios fechados, das sombras que vivem à espreita, da pobreza de espírito que assola os homens, dos sorrisos encruados, das promessas não cumpridas que ficaram presas na utopia...
pessoas sensíveis como você permitem que a esperança ao menos tente brotar em nossos corações...
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