sábado, novembro 22, 2008

Gatas extraordinárias

Acordei tão ranzinza
tão de mau humor
cheia de enrugadas reclamações
entre meus olhos
que não saíram da boca.
Mas as mulheres...
ah, o que são?
Estados de ânimos tão imaturos
quanto uma glândula pituitária desregulada...
Serão?
...limítrofes, todas
Paira somente
um bom senso de ventre
E no mais,
tenho o dia seguinte
humanamente espero e não espero
fico pulando o muro
ouvindo barulhos e limando os dentes
feito jagunço.
Cá tenho uma razão do real
lá um afeto intuitivo
Nessa brincadeira
meus dedos se fecham de esperar
um minuto que passa, longo
longo, longo –
feito centopéia numa janelinha
- pulo, despulo.
Alice sem relógio
sem coelho
sem reinado.
Pois canso de ver a centopéia desfilar
com seus sapatinhos Armani
...e nem o real é mais real
se um dia já foi real...
hoje não é mais fidalgo, não
(e esse frio de São Paulo...?
Se na Bahia há o calor
em São Paulo há o frio com garoa
Distintas capitais.
Só. Nenhuma generalização
mesquinha ou determinista, acho).
Procuro um pulo,
mais um
pulo
E amanhã
mais um
pão com manteiga
e geléia de crianças etíopes barrigudinhas vivas mortas de fome [cercadas de moscas varejeiras como se já estivessem podres.
Gangorra, carrossel, girassol
Brinquedos, diminutivos
...tiros.
Como se já não fosse o bastante
toda a condição venusiana...

quinta-feira, outubro 16, 2008

Contexto pastoral

Uma revoada
de pombos sujos e velhos
passou
E a partir desse dia
tudo deu errado

O leite qualhava
trançavam o rabo do cavalo
e encontrava formiga na cozinha
dentro do pote de melaço

Dizia as palavras erradas
nos momentos errados
e isso não somava
como na matemática
um sinal positivo

A partir desse dia
meu bem-querer enxergou
outro caminho de ida
e por lá se guiou

Tirou do meu rosto
meu sorriso já pequeno
Com uma palavra sem graça
acabou

Haicai da vingançinha besta

Mocinha afetada...
Só não é melhor que a mira
da bela andorinha.

terça-feira, setembro 16, 2008

- Conversa de botequim -

[Noel Rosa]
[Vadico]

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão

Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas,
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...

Telefone ao menos uma vez
Para três quatro quatro três três três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório

Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro,
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Poema Mafioso Anti-metafísico

os ossos
todos são
articulações
basta partí-los em dois
caso não caibam
dentro do saco

Poética

Versos brancos
versos escuros
versos cor-de-abóbora
Ladainhas de amor
ladainhas de política
ladainhas socioantropológicas
Um som líquido
unção benfazeja
para mil gerações...
Um som caduco
um guarda-chuva que abre e fecha e abre
... uma adivinhação
Tragédias
comédias
duas formas
com mil formas
de formatos
e redomas

(... impossível crer
numa poética contemporânea
miscelânea de pecados
e recalques freudianos
... impossível não rir
na frente do espelho
na certeza de apenas um gênero
figuração de um mundo:

trash brega metafórico
e sem possibilidade de futuro)

Miudezas

Sei lá, mil coisas
mil trecos
milongas
pra dançar com você

segunda-feira, agosto 11, 2008

Ma façon de transporter

caralho, o buzão
passou e despistou
quarenta pessoas que foram pro Pólo sem norte

caralho, o buzão
chegou e deixou
três kilos de fumaça preta na bandeira da porta-estandarte

caralho, o buzão
sumiu e matou
um cidadão que ia pra Zurique abrir um cofre

caralho, o buzão
desviou e deslizou
mil pelegos de sorte

caralho, o buzão
acendeu e apagou
minha bituca de brasa escarlate

caralho, o buzão
meteu e sacudiu
trezentos tiros de fuzil em um berço da maternidade

caralho, o buzão
foi e carregou
uma ponta de besteira e um quinhão de papelotes

caralho, o buzão
bombou e levou
meus dois diamantes raros de infinitos quilates

sexta-feira, agosto 08, 2008

Marcelo

Marcelo!
menino dourado
com cabelos cacheados de amarelo
anéis
elos
forjados com ferro
que unem
no grau
o sorriso forte de um tempo em que a gente era só criança...

é o barulho
é o ronco da mobilete
que dá saudade de escutar

é um fio de pipa
que a gente passava a tarde inteira
a enrolar...

Céu de noite
pra casa jantar:"Marcelo!!!"
- a gente ouvia gritar...

Essa gente de coração apertado
chora
pra ver de novo
como um rojão
o menino voltar

[força sempre!]

quarta-feira, julho 30, 2008

causo que si sucedi...

... como versa meu já velho amigo Riobaldo:

"Mas sucedia uma duvidação, ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. Só que coração meu podia mais. O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende."

(GSV - JGR)

.

que a saudade me morde
nem te contei
que sua falta me desagrada
e seu sorriso me faz falta
que suas frases
inesperadas
que me fazem rir
não sei
que a vontade me faz mal
a curiosidade me espeta as orelhas
e todos os outros sentidos
que meus sonhos a cada dia
aumentam
de tamanho, de volume, de capacidade
não
que não quero escrever pra você
conjugando os verbos na segunda pessoa do singular
só pra não assumir como óbvia trovadora
medieval e sublimamente retórica
um desejo cheio de vontades...
já sabe
e não convém sublinhar
algo que permanece entre aspas...

Como seriam...

...os encontros eróticos entre membros da elite acadêmica:

"Vai, safado... me dissipa!"

quarta-feira, julho 23, 2008

Poema do Até Logo

Que Recife abarque, com cuidado
todos os devaneios
ilustrações
pensamentos
e gostos
do meu amigo amado

Que não deixe de levar
notícias
beijos
cafunés
e abraços
em cartas e postais endereçados

Que deixe sobreviver
mesmo na praia
as saudades
as lembranças
as vitórias
de um povo louco de São Paulo

Que toque com a brisa
os cantos de uma terra
Cordel
com os outros
Hermanos
todos juntos misturados

E que não deixe esquecer
empoeirado
e guardado
as idéias que cá nasceram
floriram
só não desabrocharam

sábado, julho 19, 2008

...

mas não há sentido algum no amor. Não há unicidade, não há multilateralismo. Sendo que ao mesmo tempo, não lhe cabem paradoxos. Tudo consta como apenas uma certeza, de um segundo. Amo, sem entender e sem vontade de explicar.

quarta-feira, junho 11, 2008

Parents et fils (moyen de transport)

Vou comprar um fusquinha
cuidar com carinho
pra ele crescer
e virar um New Beetle!

segunda-feira, maio 26, 2008

Guardanapos de Papel



Guardanapos de Papel

Milton Nascimento

Composição: Leo Masliah


Na minha cidade tem poetas, poetas

Que chegam sem tambores nem trombetas

Trombetas e sempre aparecem quando

Menos aguardados, guardados, guardados

Entre livros e sapatos, em baús empoeirados

Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares

Onde vivem com seus pares, seus pares

Seus pares e convivem com fantasmas

Multicores de cores, de cores

Que te pintam as olheiras

E te pedem que não chores

Suas ilusões são repartidas, partidas

Partidas entre mortos e feridas, feridas

Feridas mas resistem com palavras

Confundidas, fundidas, fundidas

Ao seu triste passo lento

Pelas ruas e avenidas

Não desejam glorias nem medalhas, medalhas

Medalhas, se contentam

Com migalhas, migalhas, migalhas

De canções e brincadeiras com seus

Versos dispersos, dispersos

Obcecados pela busca de tesouros submersos

Fazem quatrocentos mil projetos

Projetos, projetos, que jamais são

Alcançados, cansados, cansados nada disso

Importa enquanto eles escrevem, escrevem

Escrevem o que sabem que não sabem

E o que dizem que não devem

Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas

Como se fossem cometas, cometas, cometas

Num estranho céu de estrelas idiotas

E outras e outras

Cujo brilho sem barulho

Veste suas caudas tortas

Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas

Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares

De palavras retrocedendo-se confusas, confusas

Confusas, em delgados guardanapos

Feito moscas inconclusas

Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo

Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo

E sendo eles poetas de verdade

Enquanto espiam e piram e piram

Não se cansam de falar

Do que eles juram que não viram

Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas

Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas

Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro

Inteiro, inteiro, fossem vendo pra

Depois voltar pro Rio de Janeiro

quarta-feira, maio 21, 2008

Regurgitofagia

"Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada... A mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares... Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais as primeiras discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um filho pra criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente... Casa comigo que te faço a pessoa mais "casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo"."

sábado, maio 10, 2008

Le pain

La table de nuit
une chemise de nuit
un traversin
et un grand lit

Après
un dentifrice

La matin, la vie
une ampoule

J'ai une carte orange
les clés
et une lettre bleue


(olha, é meu primeiro poema em francês! "Excellent!" foi o comentário da professora! =P)

sábado, maio 03, 2008

Inveja

Quando era criança
queria um autorama
... igual do vizinho...

Gula

Troco essa vontade
de você, por um pedaço
de carne e purê.

Orgulho

Tenho um pensamento
afetado: que estou certa
e você errado

Ira

Eu quero um serrote!!!
o pé da cama... meu dedo...
Vingança eu desejo!

Avareza

Não empresto! Antes
tudo estragado, mas pelo
menos bem guardado!

Preguiça

O papel de bala...
caiu... Meu braço lá não
chega... Paciência!

Luxúria

Cá tens um segredo:
mais vale um corpo sem rosto
que um sem desejo.

Arriscando no haicai

Por fazer
fiz sete haicais
com temática específica:
os pecados capitais

...pois bem, é clichê
não importa
também não os fiz
com destreza maestral...

Mas apesar
de sobre eles escrever
ainda não entendo...
por que alguns
afinal se encaixam
na classificação de pecados?

sexta-feira, maio 02, 2008

Era uma vez (o país da piada pronta)

Há tempos percebi
que se vive neste país
como no tempo do Rei...

Insalubridade
e inconstitucionalidade

Na base do diz que diz, faz que não faz...
Conto de terror
gênero da condescendência

... e eu aqui pensando em versos?
isso não vai dar certo...

sexta-feira, abril 25, 2008

Bem te vi

...quando criança, nunca quis voar como um pássaro

Gostava de Lego
e não de video game
e definitivamente não tinha medo
nem de altura
nem do escuro
nem do palco
medo era ser esquecida na porta do colégio

Sempre quis nadar como um peixe

e minha vida se perdia
nas bolhinhas de oxigênio...

.

sexta-feira, abril 11, 2008

Tim Maia!

"Te espero para ver se você vem
Não te troco nesta vida por ninguém
Porque eu te amo!
Eu te quero bem
Acontece que na vida a gente tem
Que ser feliz por ser amado por alguém
Porque eu te amo
Eu te adoro, meu amooooor!"

domingo, março 30, 2008

Prece

Bem vindo meu amigo
meu santo bento protetor
adentrei num manto negro
que me cobre
recobre de pudor
castidade velada
por um silêncio...
imposto

salvai-me!
que a água que me hidrata
me afoga
me deixa enrugada
nem me aquece
nem me limpa
nem me gela
não me arrasta pro fundo
e nem sinto o empuxo

...não acho meu olho!
não o vejo em parte alguma!
como posso agora enxergar?!
como posso aprender a viver
sem ver?
E a pálpebra loucamente
morre de solidão:
frouxa
solta
cheia de coroas de cílios caídos
e leve, voa...

Pega minha pálpebra fujona!!!
Acha meu olho perdido!
que estou incompleta sem meus pedaços
sem meus sentidos
e meu sorriso agora
está sozinho

domingo, março 23, 2008

Em homenagem à Páscoa e à coleção outono-inverno 2008

Eu só quero chocolate
Je seul veux chocolat

Não adianta vir com Guaraná pra mim
Vous ne tentez pas venir avec Guaraná por moi

É chocolate que eu quero beber
C'est chocolat qui je veux boire

Chocolate, chocolate
Chocolat, chocolat

Eu só quero chocolate
Je seul veux chocolat

Não adianta vir com Guaraná pra mim
Vous ne tentez pas venir avec Guaraná pour moi

É chocolate que eu quero beber
C'est chocolat qui je veux boire

Não quero chá
Je ne veux pas thé
Não quero café
Je ne veux pas café
Não quero Coca-cola
Je ne veux pas Coca-cola

Me liguei no chocolate
me lie au chocolat

Não quero pó
Je ne veux pas poudre
Não quero rapé
Je ne veux pas marijuana
Não quero cocaína
Je ne veux pas cocaïne

Me liguei no chocolate
me lie au chocolat

(Chocolate - Tim Maia)

obs.: talvez esse não seja o espírito cristão da Páscoa...
obs.2: digamos que eu não seja assim, uma tradutora de 1ª linha, mas também foi minha 1ª tentativa!
obs.3: moda me lembra o trígono Paris-Milão-Nova York, e arbitrariamente (hehehe) escolhi o Francês, sem encontrar lógica ainda na conexão dessa dupla homenagem...

sexta-feira, março 21, 2008

Lirismo do Planalto

Tapioca surreal:
com bobó, abricó, pudim e broa de milho
pão e pipoca doce
macarrão, agrião
com cana de açúcar
um pouco de molho bechamel
curau, mingau, arroz integral
feijão azuki
mostarda e tomilho
cheedar, provolone
e leite quando é sábado
Licor de anis dourado
hambúrguer de ostras
(acompanha vinho de laranja)
nhoque com molho de alcaparras
pernil, mel e aveia
bacon, bacon, bacon, bacon
fubá
catalônia e mamão
carne seca com champignons
pirão de bagre, perdiz assada com carpas
bolo de rolo
baba de moça
com risoto de alecrim
e ensopado de carneiro

Tem coisas que não têm preço.
Para essas e todas as outras existe o cartão corporativo do governo central.

sexta-feira, março 14, 2008

tristeza do Jeca

decepções factuais...


bater o dedo na quina da cama, segunda de manhã

ver a torrada cair com o lado da geléia pra baixo, domingo de tarde

ter que trocar a lâmpada do banheiro, sexta à noite

caber na calça ontem, e não caber mais hoje

derrubar pasta de dente na calça preta, no dia da reunião

quebrar a jarra de suco de maracujá, sábado de madrugada

deixar a janela aberta de noite, num dia de verão que parece inverno, sempre

tentar trocar uma nota de R$50 em todos os estabelecimentos comerciais do bairro, sem sucesso, quatro vezes que eu me lembre

cortar o dedo com a faca de pão, cortando o pão, duas vezes seguidas na semana

ir num local específico, com objetivos específicos, com um plano específico, sem ter nenhuma conclusão específica... várias vezes durante a vida

sair sem guarda-chuva, em São Paulo... só uma vez pra aprender

atrair confusões, pelo menos uma vez por semana

dormir demais e domir também de menos, alternadamente

tossir incontrolavelmente no meio do monólogo, em metade das peças de teatro que já foi e irá

decompor seus pensamentos em minúsculas partículas de não entendimento, até quando?

domingo, março 09, 2008

Poema Lipograma

Pelo percurso
meio círculo invertido
de ré
volto com os pés pretos e roídos

procuro outro rumo
e tenho o mesmo objetivo
me escondo no mesmo refúgio
e pego o mesmo retorno
sigo e redesenho o mesmo risco
de giz no cimento
estou no mesmo ponto escuro
este é meu prumo
é sempre o mesmo

Contudo, existe céu
um vulto negro que me exprime em chuvisco
e os velhos postes de luz no centro
me confundem...
...outro retorno
outros pequenos riscos
porém estes muros em torno de velhos vícios...
muro espelho de um futuro triste
No reflexo, mulher de luto
se perdendo pelo retorno certo
incerto
e deserto

quinta-feira, março 06, 2008

A palavra nova de hoje é...

Hígido!

do grego (hygiés), são.

adj.,
relativo à saúde;
salutar;
de boa saúde.

segunda-feira, março 03, 2008

Movéis Coloniais de Acaju (de novo)

"Minha doce dor se esconde
Por trás de um sorriso
Comprado, corrompido
Feliz fingido
Penso, dispenso explicações
Não controlo meu super-ego
Impossível entender minha tristeza
Já desisti não existe porquê
Sou apenas mais um alegre deprê

Busquei em vão
Identificar
Motivos para não
Querer te guardar"

(Seria o rolex? - Ego e Latrina)

p.s.: Não, não tenho nada melhor para o momento...

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Saudade

AH! eu admito!

...tenho saudade do passado, pra caralho...

...tenho já saudade do ontem,
mesmo que o sol do dia novo ainda não tenha acordado

...tenho saudade do que ainda não aconteceu
e esse é muito meu
vai e volta do jeito que desejo...

saudade do que não tenho é inveja?
ou é sonho?

por que eu sonho demais nessa vida
e não venha me falar que sou movida à cobiça pela felicidade alheia...

é apenas....
um desejo pequenino escondidinho lá no fundo
grande o suficiente pra fazer sorrir
(e chorar também
mas quem se importa?!)

Móveis Coloniais de Acaju

Swing Hum e Meio


"Embora dá para não perceber
Alguém deve estar rindo de você
Motivo talvez nem exista
Então por favor não insista
Se a imagem como documento
Não esqueça de esquecer seu talento
Aborte todo e qualquer lirismo
Para não cair em ostracismo
Seja maduro apague a ilusão
De quem tem caráter tem tudo na mão
E se é para sair bem na fotografia
Venda a sua mãe mas não perca a simpatia

Não é difícil de comparar
O meu cérebro com a castanha do Pará
Não é difícil de comparar
O nosso cérebro com a castanha do Pará

A bem da verdade é mais fácil aceitar
O mundo assim do que só contestar
A vida é um processo de atuação
Se você quer ser alguém, se destacar da multidão
Abaixa a cabeça para obter atenção
Encolha o rabo e terá admiração
Se quiser ser ouvido é bom ficar calado
E que tudo fique no mesmo estado
Hipocrisia não é mais cinismo
Eu chamo de multilateralismo
Um afago para cá uma cusparada pra lá
E assim o país inteiro vai te amar

Não é difícil de comparar
O meu cérebro com a castanha do Pará
Não é difícil de comparar
O nosso cérebro com a castanha do Pará"

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Verão

Tangerina
Mexirica
Carambola
Limão

queria um pedaço de tempo
pra guardar no tapeware

Esta vida não presta!!!

Epigrama para Emílio Moura

Tristeza de ver a tarde cair
como cai uma folha.
(No Brasil não há outono
mas as folhas caem.)

Tristeza de comprar um beijo
como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
não terão o reino dos céus.

Tristeza de guardar um segredo
que todos sabem
e não contar a ninguém
(que esta vida não presta).

(Carlos Drummond de Andrade)

...Deve ser minha natureza confusa
que atrapalha o processamento de informações que recebo.
Mas é incrível....
como alguém que já viveu 22 anos
não consegue concatenar os fatos de uma vida
com a realidade que a cerca....
São 22 anos pra perceber
"que esta vida não presta"...

Piada do bambu - a missão

Silvio,
qual a diferença entre um carro, uma casa e uma canoa?

- Ma ma ma a diferençammm? Ma eu não sei, Lombardi!

Bom, o carro é feito de metal... a casa de madeira...

- Ma ma mas e a canoa??

De bambu.


(piada enviada diretamente da patota de são caetano!)

domingo, janeiro 27, 2008

.

"Eu sabia que esse negócio de fazer aniversário todos os anos não ia dar certo. A gente acaba envelhecendo.
(...)
Chama-se vida essa lenta transformação da frase, de ainda não ter idade para não ter mais idade. Ou de poder ser, teoricamente, tudo o que se sonhasse, a poder ser, teoricamente, só papa. E por pouco tempo."

("Ter e não ter idade" - Luis Fernando Veríssimo; crônica de hoje, caderno Cultura do Estadão)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Ataque glicêmico

Sei que o doce dele
é mais doce que o meu doce
Sei que pra esse doce
tenho contra indicações médicas
O doce dele não é diet,
não é aspartame, não é light

Esse doce não me adoça a boca
esse doce me é salgado...

...o doce dele na verdade,
tem sabor de meio-amargo

domingo, janeiro 20, 2008

Los pájaros perdidos

Amo los pájaros perdidos
que vuelven desde el más alla,
a confundirse con un cielo
que nunca más podre recuperar.

Vuelven de nuevo los recuerdos,
las horas jóvenes que diy desde el mar llega un fantasma
hecho de cosas que amé y perdí.

Todo fue un sueño, un sueño que perdimos,
como perdimos los pájaros y el mar,
un sueño breve y antiguo como el tiempo
que los espejos no pueden reflejar.

Después busqué perderte en tantas otras
y aquella otra y todas eras vos

por fin logré reconocer cuando un adiós es un adiós,
la soledad me devoró y fuimos dos.

Vuelven los pájaros nocturnos
que vuelan ciegos sobre el mar,
la noche entera es un espejo
que me devuelve tu soledad.

Soy sólo un pájaro perdido
que vuelve desde el más allá
a confundirse con un cielo
que nunca más podré recuperar.

(Letra: Mario Trejo / Música: Astor Piazzolla)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

não pergunte...

mas hoje acordei me sentindo um caracol.

domingo, janeiro 06, 2008

Projeto Reciclar

Fase 1

Neo provérbios da contemporaneidade pós mapeamento do genoma humano:

"O que não tem remédio,

a medicina genética remendará"

....um pouco de cultura norueguesa!

Urso Branco Rei Valemão

Era uma vez, como sói acontecer, um rei. Ele tinha duas filhas que eram feias de dar dó, não fossem também antipáticas até a medula dos ossos; mas tinha também uma terceira filha, que era tão linda e tão alegre como um dia de sol e era amada e estimada pelo pai e por todo mundo. Certa noite, essa princesa teve um sonho, e nesse sonho o que mais lhe chamou a atenção foi uma guirlanda dourada, tão bonita que a vida perderia toda a razão de ser se não a tivesse para si. Mas, como não a tivesse e nem soubesse como poderia vir a tê-la, caiu em tristeza e melancolia, recolhendo-se a um grande silêncio.

Quando o rei soube que a filha andava triste porque queria a tal coroa de flores douradas, mandou convocar todos os mestres de ourivesaria de todos os lugares do reino e de fora do reino, para que tentassem reproduzir o sonho da princesa. Os ourives trabalharam duro, de dia e de noite. Mas algumas das coroas a princesa jogava fora, outras ela nem queria que lhe mostrassem.

E aconteceu que um dia ela estava na floresta, absorta em seus pensamentos, quando viu um urso branco, e esse urso estava segurando, entre as patas, a mesma coroa com que sonhara. Sem qualquer receio, a filha do rei aproximou-se do animal e propôs uma compra.

- Não - respondeu o urso - essa coroa de flores não está à venda por dinheiro nenhum. O único pagamento que posso aceitar é você mesma.

Bem, não valia mesmo muito a pena viver sem a coroa dourada, ponderou a princesa. E, desde que tivesse a coroa, não importava muito para onde fosse ou com quem tivesse que ficar; e combinaram, então, que o urso viria buscá-la daí a três dias, o que cairia numa quinta-feira.
Quando ela retomou ao solar de seu pai, todos se alegraram com a volta de seu sorriso, e o rei achou que não haveria de ser muito difícil manter um urso branco afastado. No terceiro dia, o rei colocou toda a sua tropa ao redor do castelo para receber o animal. Mas, quando o urso veio, ninguém conseguiu resistir às suas investidas; nada parecia conseguir feri-lo, fosse chumbo ou lâmina de aço. O urso foi derrubando todos que atravessavam o seu caminho, atirando-os para a esquerda e para a direita. O rei, percebendo que as coisas iam de mal a pior, mandou entregar a filha mais velha. O urso colocou-a sobre o lombo e partiu em largas passadas.

Depois de viajarem longe, e mais longe do que longe, o urso branco perguntou à moça que carregava nos costados:

- Você já sentou em assento mais macio, você já enxergou com uma visão mais clara?

- Sim, no colo de minha mãe eu sentava mais macio, da janela de meu quarto eu enxergava mais claro - disse a filha mais velha do rei.

- Então não é você a moça que eu devia buscar - disse o urso branco e tocou-a de lá do fundo da floresta de volta para casa.

Na quinta-feira seguinte, o urso branco voltou, e as coisas se passaram da mesma maneira. O exército do rei estava todo postado ao redor do castelo, para receber o urso à bala. Mas nem chumbo nem aço conseguiam feri-lo, o urso ia derrubando a soldadesca como se fosse capim, e o rei teve que pedir que parasse. Mandou, então, entregar-lhe a filha do meio, e, novamente, o urso colocou-a sobre o lombo e partiu a toda a velocidade.

Depois de viajarem longe, e mais longe do que longe, o urso branco perguntou à moça que carregava nos costados:

- Você já sentou em assento mais macio, você já enxergou com uma visão mais clara?

- Sim, no colo de minha mãe eu sentava mais macio, da janela de meu quarto eu enxergava mais claro - disse a filha do meio.

- Então não é você a moça que eu devia buscar - disse o urso branco e tocou-a de lá do fundo da floresta de volta para casa.

Na terceira quinta-feira, o urso retomou. Desta vez, empe­nhou-se na luta com mais vigor do que das outras vezes, e o rei logo percebeu que iria ficar sem exército algum. Resignou-se, portanto, a entregar a filha mais nova, e que ela fosse com Deus. O urso branco colocou-a sobre o lombo e partiu a toda a velocidade.

Depois de viajarem longe, e mais longe do que longe, o urso branco perguntou à moça que carregava nos costados:

- Você já sentou em assento mais macio, você já enxergou com uma visão mais clara?

- Não, nunca! - respondeu a princesa.

- Então você é mesmo a moça que eu procurava - disse o

Passadas muitas horas, chegaram a um castelo, que era tão lindo e formoso que o palácio de seu pai, em comparação, não parecia muito melhor que a casinha de um colono qualquer. Era lá que ela iria morar e viver bem, sem outra coisa para fazer senão cuidar para que o fogo da lareira nunca se apagasse. O urso passava o dia fora, mas, de noite, ficava com ela, e daí era um ser humano. E tudo foi muito bem por uns três anos. E a cada ano, a princesa deu à luz uma criança. Mas, nem bem nascida a criança, o urso branco a levava embora, ninguém sabia dizer para onde. Assim, aos poucos, a princesa foi ficando mais melancólica, triste mesmo e, por fim, perguntou ao urso se não poderia voltar para casa e visitar os seus pais. O urso branco disse-lhe que sim, que não havia nada que a impedisse. Apenas, antes de irem, ela deveria prometer que daria toda a atenção às palavras de seu pai, mas não faria nada do que a mãe insistiria para que ela fizesse.

O urso branco levou-a para a quinta real e, quando ficou sozinha com os pais e contou como as coisas estavam indo, a mãe quis lhe dar uma vela, para que ela pudesse ver como era o urso quando virava gente à noite. Já o pai lhe recomendou que não fizesse nada disso, "porque se você seguir esse conselho de sua mãe, minha filha, só vai-lhe trazer aborrecimentos".
Mas, fosse lá como fosse, ela acabou levando consigo o toco de vela quando foi voltar para o castelo do urso. E a primeira coisa que fez quando ele caiu no sono foi acender a vela e iluminar-lhe o rosto. Viu, então, que era um moço tão lindo que não havia como desgrudar o olhar dele. Mas, enquanto segurava o toco de vela, um pingo de cera quente caiu-lhe sobre a testa e ele acordou.

- O que é que você foi fazer?! - exclamou. - Agora você trouxe mágoa e desgraça para nós dois. Só faltava mais um mês, e eu teria sido salvo da minha maldição; pois foi uma troll que jogou esse encanto em mim, e é por isso que sou urso branco de dia. Mas agora está tudo acabado e terminado entre nós, eu vou ter que ir embora e casar-me com ela.

A filha do rei chorou, gritou e descabelou-se toda; mas ele tinha que viajar e ia viajar de qualquer jeito. Então ela perguntou se não poderia ir com ele. Mas isso não seria possível. Mesmo assim, quando ele se transformou de novo em urso branco e saiu em disparada, a princesa, no desespero, agarrou em seu pêlo, atirou-se sobre o lombo dele e segurou-se com toda a força. E foram voando sobre pântanos e montanhas, através de bosques e várzeas, até suas roupas ficarem todas rasgadas. Por fim, o can­saço foi mais forte, as mãos fraquejaram, e ela acabou soltando o pêlo do urso e caiu, perdendo os sentidos.

Quando acordou, a princesa viu que estava sozinha no meio de uma grande floresta. Ainda toda dolorida, levantou-se e, pegando a primeira trilha que encontrou, foi adiante, sem saber se estava caminhando na direção certa e nem para onde a trilha poderia levá-la. Depois de muitas horas, chegou a uma choupana, onde havia uma velha e uma menininha que era uma graça.
A moça perguntou se uma delas havia visto o Urso Branco Rei Valemão.

- Sim, ele passou chispando por aqui hoje cedo; mas ele ia tão apressado que vai ser difícil alcançá-lo - responderam as duas.

A menininha ia de um lado para outro, brincando com uma tesoura de ouro, que era de tal feitio que cada vez que dava um corte no ar, voavam para todo canto panos de seda e de flanela. Quem tivesse uma tesoura dessas, jamais passaria necessidade por falta do que vestir.

- Mas essa moça que vai viajar para tão longe, por caminhos tão difíceis, ela vai ter que sofrer muito, ainda - disse a menininha - e acho que ela vai precisar desta tesoura mais do que eu, para fazer umas roupas para ela usar. - E perguntou à velha se poderia dar a tesoura para a moça de presente.

A velha consentiu, ...
... e a princesa retomou a sua caminhada, pela floresta que parecia que não ia ter mais fim; e foi andando, sem parar, de dia e de noite, e, na manhã seguinte, deparou-se com outra choupana. Lá também havia uma velha e uma menininha.

- Bom dia - disse a princesa -, vocês por acaso viram o Urso Branco Rei Valemão?

- Era você que deveria ter ficado com ele? - perguntou a velha.

- Era sim.

- Pois é, ele passou por aqui a galope ontem de madrugada; mas estava indo com tanta pressa que acho que você não vai conseguir alcançá-lo.

A menininha estava brincando no chão com uma garrafa, e essa garrafa era de tal feitio que por mais que alguém se servisse dela, o quanto quisesse, nunca se esvaziava. Quem tivesse tal garrafa, nunca passaria necessidade por falta do que beber.

- Mas essa moça que vai viajar para tão longe, por caminhos tão difíceis, ela vai passar muita sede - disse a menininha - e acho que ela vai precisar desta garrafa mais do que eu. - E perguntou à velha se poderia dar a garrafa para a moça de presente. A velha fez que sim, ...

... a princesa agradeceu a indicação e o presente, e retomou a sua caminhada.

As trilhas conduziram a filha do rei por mais uma jornada através da mesma floresta, o restante daquele dia e mais a noite toda. Na terceira manhã, ela chegou a uma choupana, onde tam­bém havia uma velha e uma menininha.

- Bom dia - disse a princesa.

- Bom dia para você também - disse a velha.

- A senhora por acaso viu o Urso Branco Rei Valemão passar por aqui? - perguntou a princesa.

- Será que não era você que deveria ter ficado com ele? indagou a velha.

Pois é, era ela mesma.

- Bem, ele passou por aqui anteontem pela manhã. Mas com a pressa que estava, acho que você não vai conseguir alcançá-lo, não.

A menininha estava brincando no chão com uma toalha de mesa, e essa toalha era de tal feitio que, quando se dizia: "Toalha, estenda-se e cubra-se de iguarias!", ela se cobria de tudo quanto era prato e iguaria, e quem tivesse tal toalha nunca passaria necessidade por falta do que comer.
- Mas essa moça que vai viajar para tão longe, por caminhos tão difíceis, ela vai passar muita fome e por tantos outros sacrifí­cios - disse a menininha - e acho que ela vai precisar desta toalha de mesa bem mais do que eu. - E perguntou à velha se poderia dar a toalha de mesa para a moça de presente.

A velha fez que sim, ...
... a princesa agradeceu a indicação e o presente, e retomou a sua viagem. Andou longe, e mais longe do que longe, sempre através daquela mesma floresta escura, o dia inteiro e mais toda a noite. Na manhã seguinte, chegou até uma cordilheira, em que cada montanha erguia-se em rocha viva, como uma parede, tão alta e tão larga que era impossível enxergar até onde ia. Ao pé da cordilheira, também havia uma choupana, e a primeira coisa que disse, ao entrar, foi:

- Bom dia! A senhora por acaso não teria visto o Urso Branco Rei Valemão passar por aqui?

- Bom dia para você também - disse a mulher que morava na choupana -, não seria você a noiva com quem ele deveria ter-se casado?

Pois é, era ela mesma.

- Bem - disse a mulher -, ele subiu aqui a montanha faz uns dois ou três dias. Mas nenhuma criatura que não tenha asas poderia tentar seguir pelo mesmo caminho.

A choupana estava cheia de criancinhas, e todas se penduravam no avental da mãe chorando por comida. A velha pôs no fogo um caldeirão cheio de cascalho. A filha do rei, curiosa, perguntou-lhe qual seria a serventia disso. Eles eram tão pobres, disse a mãe, que não tinham quase nada, nem para roupa e nem para comida. Doía-lhe tanto o coração ouvir as crianças chorarem por falta do que comer; mas, quando punha o caldeirão no fogo e dizia: "As maçãs já já vão ficar cozidas", era como se acalmasse a fome, e paravam de chorar por algum tempo. Como era de se esperar, não demorou para a princesa tirar a toalha de mesa e a garrafa e, quando as crianças já estavam satisfeitas e felizes, cortou roupas para elas com a tesoura de ouro.

- Bem - disse a velha -, já que você foi tão caridosa comigo e com os meus filhos, seria uma vergonha se eu não retribuísse ajudando-a com o que está a nosso alcance para que você consiga subir pela montanha. O meu marido é um ferreiro. Agora, você devia descansar um pouco até ele voltar. Quando chegar, vou pedir para ele fazer umas garras para as suas mãos e para os seus pés, e assim, quem sabe, você vai poder seguir o seu caminho.

Quando o ferreiro retomou, pôs-se imediatamente a fazer as garras e, na manhã seguinte, já estavam prontas. Ela não quis esperar mais, agradeceu a hospitalidade e a valiosa ajuda, encaixou as garras nas mãos e nos pés e pôs-se a subir, polegada por polegada, palmo a palmo, pela parede rochosa, o dia inteiro e mais a noite toda. Por fim, estava tão cansada, tão exaurida, que achava que não conseguiria erguer a mão nem mais uma única vez, mas iria cair para trás e se acabar no precipício, quando, repentinamente, viu-se lá em cima. Era um planalto com campos e prados tão vastos, tão imensos que jamais havia imaginado que existissem tão extensos assim, e logo se viu nas proximidades de um castelo cheio de operários de todo tipo, indo e vindo sem parar, como formigas em um formigueiro.

- O que está havendo por aqui? - perguntou a filha do rei. E contaram-lhe que quem morava nesse castelo era a Troll que havia enfeitiçado o Urso Branco Rei Valemão; e que o casamento iria ser celebrado daí a três dias. Ela perguntou se seria possível falar com a Troll. Não, isso não poderia ser, ninguém conseguia audiência com ela, ainda mais uma forasteira, disse­ram-lhe todos. Então, a princesa sentou-se debaixo do parapeito de uma das janelas do castelo e começou a cortar o ar com a sua tesoura de ouro, tão rápida que panos de seda e de flanela voavam a seu redor como uma tempestade de neve. Quando a Troll viu a habilidade da moça com a tesoura, quis logo saber quanto ela queria pela maravilha: "porque, por mais que os alfaiates e as costureiras trabalhem noite e dia, não dão conta do recado, tem gente demais para ser vestida aqui", disse a Troll.

Por dinheiro nenhum ela venderia a tesoura, respondeu a princesa; mas a Sua Trollência poderia ficar com a tesoura se ela pudesse dormir com o noivo aquela noite. Quanto a isso, não haveria problema, disse a Troll, mas ela mesma iria pô-lo para dormir e viria acordá-lo de manhã.

Quando, então, o noivo foi deitar-se, a Troll deu-lhe um sonífero e, por mais que a filha do rei chorasse e chamasse por ele, continuou ferrado em sono profundo.

No dia seguinte, a princesa sentou-se de novo do lado de fora do castelo e começou a servir-se da garrafa, que jorrava cerveja e vinho, sem jamais se esvaziar. Quando a Troll percebeu o que estava acontecendo, quis comprá-la: "porque, por mais que os cervejeiros e os viticultores trabalhem noite e dia, nunca há bebida que chegue para tanta gente", disse a Troll.

Por dinheiro nenhum a princesa lhe venderia a garrafa; mas a Sua Trollidade poderia ficar com a garrafa para si, se ela, a moça, pudesse dormir com o noivo aquela noite. Quanto a isso, não haveria problema, disse a Troll, mas ela mesma iria pô-lo para dormir e viria acordá-lo de manhã. Quando, então, o noivo foi deitar-se, a Troll deu-lhe um sonífero, e o Rei Valemão continuou ferrado em sono profundo, por mais que a filha do rei chorasse e chamasse por ele.

Mas, naquela noite, um dos operários do castelo estivera ocupado reformando o quarto do lado. Ele ouviu todo o choro, entendeu que algo de errado estava acontecendo; e, no dia seguin­te, contou o ocorrido para o Rei Valemão, que logo percebeu que devia ser a sua princesa que havia vindo para salvá-lo.

E aquele terceiro dia transcorreu como os demais. Por volta da hora do almoço, a filha do rei ajeitou-se do lado de fora do castelo, tirou a toalha de mesa e disse: "Toalha! Estenda-se e cubra-se de iguarias!" E, imediatamente, a toalha cobriu-se de tudo quanto é comida apetitosa e iguaria fina, o suficiente para alimentar uma centena de homens feitos. Mas a princesa acomo­dou-se para almoçar sozinha. Quando a Troll ficou sabendo e viu a toalha, quis logo comprá-la: "porque, por mais que os açouguei­ros abatam e os cozinheiros cozinhem e assem, nunca dão conta de fazer comida que baste para tanta gente", justificou a Troll.

Por dinheiro nenhum a princesa lhe venderia a toalha; mas a Sua Trollexcência poderia ficar com a toalha para si se ela, a moça, pudesse dormir com o noivo aquela noite. Quanto a isso, não haveria problema, disse a Troll, mas ela mesma iria pô-lo para dormir e viria acordá-lo de manhã. E, como das outras vezes, quando o noivo foi deitar-se, a Troll veio dar-lhe o sonífero.

Mas, dessa vez, o Rei Valemão estava preparado e só fingiu que tomava a bebida. A Troll também não confiava lá muito em seu noivo: por via das dúvidas, pegou uma agulha grossa, daquelas de remendar, e furou-lhe o braço, para ver se o seu sono era mesmo bem profundo.

Mas, por maior que fosse a dor, ele não se mexeu, e a filha do rei pôde entrar no quarto.
Agora tudo ia voltando aos eixos, e os dois estavam muito felizes. Precisavam, porém, livrar-se da Troll! para que ele estivesse definitivamente salvo. O Rei Valemão convocou, então, os carpinteiros para construírem um alçapão na ponte pela qual a procissão do casamento iria passar; porque, naquela terra, a tradição mandava que a noiva cavalgasse à frente da procissão.

Quando, então, iniciaram o cortejo, o alçapão cedeu, e a noiva e as suas damas-trolls de companhia despencaram lá do alto e se esborracharam todas. O Rei Valemão e a filha do rei e mais todos os convidados correram de volta ao castelo e tomaram do ouro e do dinheiro da Troll, o tanto que agüentavam carregar, e mais a tesoura, a garrafa e a toalha mágicas, e partiram para o país do Rei Valemão para celebrarem o verdadeiro casamento. Mas, a cami­nho, passaram por cada uma das três primeiras choupanas que a filha do rei havia encontrado em sua longa caminhada, para buscarem as três menininhas. E agora ela entendeu por que o urso branco havia tirado dela as suas filhas ao nascer; era para que pudessem ajudá-la a encontrar o caminho até ele. Então celebra­ram o casamento com toda a pompa e circunstância, e não faltou comida e nem bebida para ninguém.


***Tradução do original Norueguês por Francis Henrik Aubert.

Sabedoria Popular...

"Quem não pode com a mandinga, não arrasta o patuá."