segunda-feira, maio 26, 2008

Guardanapos de Papel



Guardanapos de Papel

Milton Nascimento

Composição: Leo Masliah


Na minha cidade tem poetas, poetas

Que chegam sem tambores nem trombetas

Trombetas e sempre aparecem quando

Menos aguardados, guardados, guardados

Entre livros e sapatos, em baús empoeirados

Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares

Onde vivem com seus pares, seus pares

Seus pares e convivem com fantasmas

Multicores de cores, de cores

Que te pintam as olheiras

E te pedem que não chores

Suas ilusões são repartidas, partidas

Partidas entre mortos e feridas, feridas

Feridas mas resistem com palavras

Confundidas, fundidas, fundidas

Ao seu triste passo lento

Pelas ruas e avenidas

Não desejam glorias nem medalhas, medalhas

Medalhas, se contentam

Com migalhas, migalhas, migalhas

De canções e brincadeiras com seus

Versos dispersos, dispersos

Obcecados pela busca de tesouros submersos

Fazem quatrocentos mil projetos

Projetos, projetos, que jamais são

Alcançados, cansados, cansados nada disso

Importa enquanto eles escrevem, escrevem

Escrevem o que sabem que não sabem

E o que dizem que não devem

Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas

Como se fossem cometas, cometas, cometas

Num estranho céu de estrelas idiotas

E outras e outras

Cujo brilho sem barulho

Veste suas caudas tortas

Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas

Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares

De palavras retrocedendo-se confusas, confusas

Confusas, em delgados guardanapos

Feito moscas inconclusas

Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo

Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo

E sendo eles poetas de verdade

Enquanto espiam e piram e piram

Não se cansam de falar

Do que eles juram que não viram

Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas

Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas

Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro

Inteiro, inteiro, fossem vendo pra

Depois voltar pro Rio de Janeiro

quarta-feira, maio 21, 2008

Regurgitofagia

"Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada... A mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares... Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais as primeiras discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um filho pra criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente... Casa comigo que te faço a pessoa mais "casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo"."

sábado, maio 10, 2008

Le pain

La table de nuit
une chemise de nuit
un traversin
et un grand lit

Après
un dentifrice

La matin, la vie
une ampoule

J'ai une carte orange
les clés
et une lettre bleue


(olha, é meu primeiro poema em francês! "Excellent!" foi o comentário da professora! =P)

sábado, maio 03, 2008

Inveja

Quando era criança
queria um autorama
... igual do vizinho...

Gula

Troco essa vontade
de você, por um pedaço
de carne e purê.

Orgulho

Tenho um pensamento
afetado: que estou certa
e você errado

Ira

Eu quero um serrote!!!
o pé da cama... meu dedo...
Vingança eu desejo!

Avareza

Não empresto! Antes
tudo estragado, mas pelo
menos bem guardado!

Preguiça

O papel de bala...
caiu... Meu braço lá não
chega... Paciência!

Luxúria

Cá tens um segredo:
mais vale um corpo sem rosto
que um sem desejo.

Arriscando no haicai

Por fazer
fiz sete haicais
com temática específica:
os pecados capitais

...pois bem, é clichê
não importa
também não os fiz
com destreza maestral...

Mas apesar
de sobre eles escrever
ainda não entendo...
por que alguns
afinal se encaixam
na classificação de pecados?

sexta-feira, maio 02, 2008

Era uma vez (o país da piada pronta)

Há tempos percebi
que se vive neste país
como no tempo do Rei...

Insalubridade
e inconstitucionalidade

Na base do diz que diz, faz que não faz...
Conto de terror
gênero da condescendência

... e eu aqui pensando em versos?
isso não vai dar certo...

Sabedoria Popular...

"Quem não pode com a mandinga, não arrasta o patuá."